TERRITÓRIOS DA ARTE

2ª SÉRIE EM - 1º BIMESTRE - VOL1

DIRETORIA DE ENSINO – REGIÃO TAQUARITINGA

SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DE SÃO PAULO

CADERNO DE ARTE – VOLUME 1

EM - 2ª SÉRIE

Os sites já estão linkados é só clicar.

Tenham um excelente estudo!

LUCIANO MARIUSSI.

http://www.muvi.advant.com.br/artistas/l/luciano_mariussi/luciano_mariussi.htm

LYGIA CLARK.

http://www.lygiaclark.org.br

VELÁZQUEZ.

http://www.pitoresco.com/universal/velazquez/velazquez.htm

FESTIVAL DE DANÇA.

http://www.panoramafestival.com

FESTIVAL DE TEATRO.

http://www.festivaldeteatro.com.br

http://www.recife.pe.gov.br/pr/seccultura/festivalteatro.php

http://www.filo.art.br

http://www.festivalriopreto.com.br

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http://www.festivalriopreto.com.br

http://www2.portoalegre.rs.gov.br/poaemcena

FESTIVAL DE CIRCO DO BRASIL.

http://www.festivaldecircodobrasil.com.br

AS BACANTES DE EURÍPEDES

Tragédia de Eurípides apresentada em -405, após sua morte, juntamente com a Ifigênia em Áulis e Alcmeon em Corinto (tragédia perdida). A trilogia recebeu o primeiro prêmio no concurso de tragédias.


Hipótese

Dioniso chega a Tebas, terra de sua mãe, para ali implantar seu culto. Cadmo e Tirésias estão a favor, mas o rei Penteu é contra. Dioniso induz um delírio nas mulheres da cidade, inclusive sua tia Agave e as irmãs, que partem para o monte Cíteron juntamente com as mênades. Penteu prende Dioniso, que escapa facilmente e convence o rei a assistir, escondido e disfarçado, os rituais das mênades. Penteu é descoberto, morto e desmembrado pelas mulhares em êxtase, e sua cabeça é levada para Tebas por Agave, que acredita ter matado um filhote de leão.

PERSONAGENS

DIONISO
Deus do vinho e do êxtase, filho de Zeus e de Sêmele.

CORO
Mênades da Lídia.

TIRÉSIAS
Adivinho tebano.

CADMO
Pai de Sêmele, fundador de Tebas, avô de Dioniso.

PENTEU
Neto de Cadmo, filho de Agave, primo de Dioniso, rei de Tebas.

AGAVE
Filha de Cadmo, irmã de Sêmele, mãe de Penteu, tia de Dioniso.
Um pastor (servo de Penteu), dois mensageiros.

Prólogo
A cena é em Tebas, Beócia. Ao fundo, a fachada do palácio real, Penteu. Frente ao palácio, vêem-se algumas ruínas e entre elas o túmulo de Sémele, rodeado de vides, e donde se escapa por vezes um fio de fumo. Dioniso, revestido com uma pele de gamo e com o tirso na mão, entra em cena. Avança até o túmulo de Sémele, mãe de Dionísio.
O protagonista fazia o papel de Dioniso e de Tirésias; o deuteragonista, o de Penteu e de Agave; e o tritagonista representava Cadmo, o Servidor e o Mensageiro

Dioniso
À terra de Tebas venho, eu, Dioniso,de Zeus filho, a quem outrora deu à luz Sémele, filha de Cadmo, pela chama do raio assistida.
Alterando para mortal a feição divina,junto estou à nascente de Dirce e águas de Ismeno;o túmulo de minha mãe, a fulminada, vejo,ao palácio vizinho, e as ruínas da sua morada,do fogo de Zeus uma chama ainda viva exalando,imperecível cólera de Hera contra minha mãe.
A Cadmo exalto, que em solo inviolável o túmulo da filha tornou; de pâmpano eu o cingi, em verdura e cachos abundante.
Da Lídia e da Frígia, os campos ricos em ouro deixei; da Pérsia, os planaltos batidos de sol; de Báctria, os muros; em funesta invernia, o país dos Medos; e a opulenta Arábia percorri e a Ásia toda, que ao longo do salgado mar jaz, com Helenos a bárbaros associados, senhora de copiosas cidades de belas torres; para esta cidade dos Gregos logo me encaminhei, depois de ti ali instituídos meus coros e ritos, para aos mortais como deus me revelar.
De terras helênicas, Tebas é a primeira a ressoar com os meus gritos, a nébride sobre o corpo, e à mão entregue o tirso, dardo feito de hera; pois as irmãs de minha mãe, menos que ninguém, deviam dizer que Dioniso não nasceu de Zeus,
que Sémele, seduzida, a falta do leito de algum mortal imputou a Zeus o expediente por Cadmo inventado - e que Zeus a matou porque disso se jactava, já que tais núpcias fantasiara.
Por tal, de delírio as impregnei, e, loucos os espíritos, do palácio à montanha se foram. Forcei-as a usar a veste das minhas orgias,
e toda a descendência feminina Cadminiana, quantas mulheres havia, expulsei das casas; sentam-se em rochedos desabrigados, sob verdes pinheiros.
Deve a cidade aprender, ainda que não queira, nos báquicos mistérios não sendo iniciada, que a Sémele, minha mãe, defendo, e eu aos mortais surjo como deus, por ela de Zeus concebido.
Cadmo, idoso já, o poder absoluto a Penteu, de uma filha gerado, entregou; este comigo luta e das libações me repele, e, nas preces, de mim não tem memória. Por isso, a ele e a todos os Tebanos
Mostrarei que nasci deus. A outra terra, Depois de tudo em ordem, meus passos dirigirei, Revelando quem sou. Mas se a cidade de Tebas,
Pela cólera e pelas armas, da montanha as Bacantes buscar reconduzir, dirigirei as Ménades no combate. Por tais motivos, em mortal mudados tenho os traços, a semblante humano passei a minha feição.
Vamos! Vós que o Tmolo, bastião da Lídia, abandonastes, ó meu tíaso, ó mulheres, que de bárbaros países comigo trouxe, adeptas e companheiras minhas, os tamboris, na terra Frígia natos, erguei, invento de Réia venerável e meu, e, cercando o palácio real de Penteu, fazei-os ressoar, para que a cidade de Cadmo veja!
Às escarpas do Citéron, aonde estão me vou, e, com as Bacantes, dos coros participarei.

(Dioniso sai.)

Párodo

(Entra o coro das Bacantes, envergando peles de gamo, coroadas de hera e de serpentes, agitando os tirsos e os tamboris, tocando flauta e dançando ao som destes instrumentos.)

Coro
Da terra da Ásia passando o Tmolo sagrado, eu me apresso por Brómio - doce fadiga, pena tão sem pena - a Baco celebrando com gritos de Evoé!
Quem vai aí, quem vai aí? Quem?
Para dentro de casa se afaste, uma fala piedosa cada um tribute!
Sempre, o que pelo uso está consagrado a Dioniso cantarei!

Estrofe 1.ª
Oh!
Bem-aventurado, feliz quem nos divinos mistérios instruído,
seus dias piedosamente dirige e a alma nobilita nas montanhas, pelas purificações sagradas das Bacantes!
De Cibele, a Grande Mãe, celebrando as orgias, o tirso agitando freneticamente e coroando-se de hera, a Dioniso atende.
Ide, Bacantes! Ide, Bacantes!
A Brómio, deus filho de deus, a Dioniso fazei descer das frígias montanhas para as amplas ruas da Hélade, a Brómio!

Antiestrofe 1.ª
Foi a ele que noutro tempo, acometida das violentas dores do parto sob o trovão alado de Zeus, fora do ventre a mãe lançou, deixando a vida por ação do raio fulminante.
Logo, para que ele pudesse nascer, em um abrigo Zeus Crónida o acolheu, e a sua coxa dissimulou com fíbulas de ouro a prender, a ocultas de Hera. Deu à luz, quando os Destinos se cumpriram, o deus ornado de chifres e com uma coroa de serpentes o coroou.
Desde então, com tal despojo selvagem, as Ménades seus anelados cabelos cingem.

Estrofe 2.ª
Ó Tebas, de Sémele ama, engrinalda-te com hera, faz brotar em abundância o verde alegra-campo, produtor de belos frutos, ao delírio báquico consagra-te, com ramos de carvalho ou de abeto.
E de mosqueadas nébrides revestida, rodeia-as com brancos cordões de lã entrançada. Do nártex soberbo um uso pio faz.
O povo todo, sem demora, irá dançar em sua honra, - quem quer que dirija os tíasos, outro Brómio é - para a montanha, para a montanha, lá onde está das mulheres a multidão, dos teares e lançadeiras apartada e por Dioniso enlouquecida!

Antiestrofe 2.ª
Ó antro dos Curetas, e de Creta grutas veneráveis, que a Zeus viram nascer!
Ali, nas cavernas, os de triplo elmo esta pele em círculo distendida
para mim inventaram, os Coribantes!
Ao ardor báquico uniram o harmonioso sopro das frigias flautas e nas mãos de Réia Mãe o depuseram, eco aos gritos das Bacantes.
Os Sátiros, desvairados, da Deusa Mãe o receberam, e às danças das festas trienais o associaram, em que Dioniso se compraz.

Epodo
Está-se bem nas montanhas, depois das corridas dos tíasos, quando se cai por terra, envergando a sacra nébride, buscando o sangue de um bode imolado, a graça da omofagia, para as frígias e lídias montanhas avançando, ao sinal de Brómio, Evoé!
Do solo escorre leite, escorre vinho, escorre das abelhas o néctar!
Tal um vapor de incenso da Síria, o sacerdote de Baco empunhando
a ardente chama no topo da vara de pinheiro, incita à corrida, e às danças quem anda errante impele, com seus brados estimula, os delicados cabelos flutuando ao vento...
Entre gritos de Evoé, ele clama:
Ide, Bacantes!
No esplendor do Tmolo que rola torrentes de ouro, celebrai a Dioniso
pelo rufar dos tamboris, glorificando o deus Evoé com Evoés, em gritos estridentes ao modo frígio, quando o sacro loto de melodioso tom fizer ecoar os sacros acordes dos folguedos, em uníssono c'os espíritos alucinados, para a montanha, para a montanha!
Então, plena de deleite, como a poldra que com a mãe vai pascer, a Bacante seus pés velozes em saltos agita...

1.º Episódio

(O adivinho Tirésias, envergando uma nébride, vem bater à porta do palácio, donde irá sair Cadmo.)

Tirésias
Quem está à porta? Que vá chamar Cadmo, o filho de Agenor, aquele que a Sídon abandonou, para esta cidade de Tebas edificar.
Alguém vá anunciar-lhe que Tirésias o procura. Ele sabe o que me impele, o que a minha velhice à sua mais decrépita prometeu: guarnecer os tirsos, envergar as peles de gamo e com folhas de hera a cabeça ornar.

(Entra Cadmo, vestido de igual maneira.)

Cadmo
Ó tu, de entre os amigos o mais caro! Pressentindo a tua sensata voz de homem sensato, lá dentro do palácio, acorri, a divina veste pronto a trajar; sendo Dioniso filho de minha filha, urge exaltá-lo até onde está o nosso alcance.
Onde iremos dançar, onde deter nossos passos e agitar os encanecidos cabelos? Orienta-me, Tirésias, um ancião a outro ancião. É que tu és sensato!
Toda a noite e todo o dia, sem esmorecer, batendo a terra com o tirso, é doce olvidar a velhice!

Tirésias
Sentes o que eu sinto.
Também rejuvenesci. Aos coros pretendo associar-me.

Cadmo
Iremos em carros para a montanha?

Tirésias
Tanto menor seria a honra do deus.

Cadmo
Servir-te-ei de guia, um velho a outro velho.

Tirésias
Para ali nos conduzirá o deus, sem custo.

Cadmo
De toda a cidade, só nós dançamos por Baco?

Tirésias
Só a nós o bom senso possui, aos outros não.

Cadmo
Tardamos muito. Dá-me a tua mão.

Tirésias
Ei-la, estende e associa a tua.

Cadmo
Mortal que nasci, aos deuses não rejeito.

Tirésias
Não podemos lograr os deuses.
Os costumes ancestrais igualam o tempo em grandeza; não os aniquilará o raciocínio, ainda que ínclitos espíritos descubram a sabedoria.
Dirão que da senilidade não sinto pejo, porque a dançar e de hera a cabeça a cingir, aspiro.
Não determina o deus se é jovem ou velho aquele que à dança se entrega, a todos reclama honras iguais, sem distinções; glorificado anseia ser.

Cadmo
Pois que da claridade não desfrutas, Tirésias, dos fatos intérprete para ti me volverei.
Rumo ao palácio, açodado, vem Penteu, filho de Equíon, em quem o real poder deleguei.
Que feição alterada! Que trará de novo?

(Penteu, com vestes reais, entra.)

Penteu
Do país tendo estado ausente, eis que chego e ouço falar dos males recentes que vão pela cidade: nossas mulheres dos lares se esquivaram
em busca de falsos mistérios, em lúgubres montanhas vagueiam, a um novo deus, Dioniso, ou lá quem é, honrando com danças!
No meio dos tíasos elevam-se, a transbordar, os crateres, umas e outras em ermo recanto se acolhem, dóceis aos prazeres masculinos: na aparência, Ménades cumpridoras dos sacrifícios, na realidade, a Baco preferem Afrodite!
De algumas me assenhoreei, agrilhoadas as mãos; a essas, meus servos nos cárceres vigiam; as outras, que estão longe, das montanhas farei sair, e, prendendo-as em férreas cadeias, os nocivos mistérios báquicos depressa cercearei.
Contam que se introduziu aqui um estrangeiro, um mago do país lídio, um feiticeiro, que seu cabelo de fulvos anéis aromatiza, e, nos olhos, de Afrodite a graça purpúrea detém!
Dia e noite às jovens se associa, os ritos de Evoé ofertando...
Se sob este teto o apanhar, ao bater do tirso obstarei, e ao agitar
dos cabelos, apartando o pescoço do resto do corpo.
O deus Dioniso ele afirma ser, aquele que na coxa de Zeus outrora foi cosido, ele, que pelas chamas do raio foi devorado com a mãe, porque as núpcias divinas fantasiou.
Da abominável forca não é isto digno, insolente pleno de insolência, quem quer que seja o estrangeiro?
Mas que prodígio me é dado contemplar! O adivinho Tirésias, em mosqueadas nébrides envolto, e de minha mãe o progenitor - oh! escárnio! - empunhando o nártex em delírio! Renego, ó pai, a tua senilidade, privada de entendimento!
E se arremessasses essa hera? E se desejasses do tirso a mão soltar, ó pai de minha mãe?
Tu o persuadiste, Tirésias! O que visas, atraindo aos homens essa nova divindade, é granjear salários, observando as vítimas e o vôo das aves!
Se teus encanecidos cabelos por ti não velassem, acorrentado, entre as Bacantes te acomodarias, pois tais ritos celerados quiseste introduzir. Quando às mulheres, no festim, o fulgurante suco da uva é ofertado, eu sustento que em tais orgias nada de sensato há!

Coro
Que impiedade! Ó estrangeiro, aos deuses não temes nem a Cadmo, o que semeou a messe que da terra veio a nascer?
Tu, vergôntea de Equíon, o desdouro de tua raça anseias?

Tirésias
Quando de seus discursos um homem sabedor colhe bons princípios, fala bem e sem pena.
Destra linguagem tens, como se sensato foras, mas em tuas palavras não há sensatez.
Um homem com audácia e arguto no falar, porém sem discernimento, funesto cidadão será.
Da divindade nascente, que ora tu escarneces, não poderei relatar quanta magnitude na Hélade alcançará! Duas são, ó jovem, entre os homens as coisas primeiras: a deusa Deméter - é a terra; por um destes nomes invoco-a, a teu grado - aos mortais os alimentos secos proporciona.
Vem depois o seu émulo, o filho de Sémele, que da uva o fluído líquido achou e trouxe aos mortais; aquieta aos homens míseros suas penas, quando do suco da vinha estão saciados, o sono e o olvido dos males cotidianos lhes concede; para as dores outro lenitivo não há.
Ele, que nasceu deus, aos deuses em libação se entrega e, graças a ele, dos homens o bem é pertença.
Dele zombas, porque a Zeus foi cosido na coxa? Pois demonstrarei que está certo.
Depois que da chama do raio o arrebatou, Zeus conduziu ao Olimpo o deus-menino.
Da abóbada celeste, Hera pretendeu arremessá-lo; então Zeus, como deus que é, contra ela estas coisas urdiu: do éter que envolve a terra, uma parte ele rompeu, e entregou-o, fazendo dele um penhor, do ciúme de Hera, Dioniso. Mais tarde, os homens afirmaram que na coxa de Zeus ele foi cosido, tendo alterado a palavra - que o deus à deusa Hera como penhor outrora servira - uma lenda forjaram. Vate é ainda o deus. O êxtase báquico e o delírio têm grande poder profético.
Quando o deus penetra bem no corpo, aos alucinados o porvir permite anunciar.
Dos atributos de Ares tem também uma parte; em armas e em ordem de combate, um exército ele dispersou, pelo terror, antes de as lanças se tocarem.
Tal é o delírio que de Dioniso nos vem.
Ainda o hás de ver sobre os Délficos penhascos, pulando, com a tocha de pinheiro, no planalto de dois cumes pondo em vibração e brandindo a vara e Baco, e engrandecer-se na Hélade! Vamos, Penteu, escuta-me! não te ufanes de ter um poder absoluto entre os homens, não creias, quando enferma se encontra tua mente, não creias pensar bem. Acolhe o deus nesta terra, consagra-lhe libações, anima-te do delírio e coroa a tua cabeça!
A serem castas não constrangerá Dioniso as mulheres, no culto de Cípris, mas em sua própria natureza deve-se buscar essa virtude. Pois nos festejos de Baco, corrupta não se tornará a que for casta.
Vê como te apraz. quando às tuas portas se comprime o povo, e de Penteu o nome a cidade aclama!
A ele também, penso, apraz ser glorificado.
Eu e Cadmo, ainda que tu dele zombes, de hera engrinaldados a dançar iremos - um par encanecido, e dançando todavia.
Não me persuadirás por tuas palavras a combater os deuses, das loucuras a mais cruel te tomou, nas drogas alívio não acharás, mas não é sem drogas que enfermo te encontras.

Coro
Ó ancião, a Febo em palavras não ultrajas, e honrando a Brómio, o grande deus, és sensato!

Cadmo
Ó filho, bons são os conselhos de Tirésias, junto de nós permanece, além das tradições não avances!
Agora desvarias e, em teu senso, sensatez não há.
Ainda que não seja deus, como tu crês, declara-o; mentindo com elegância, afirma que ele existe, para que Sémele passe por ter dado à luz um deus, e a toda a nossa raça honra advirá.
Recorda a desventura sinistra de Actéon: os feros cães que criara, esses mesmos o dilaceraram, nas planícies, porque de superar na caça a Ártemis ele se vangloriava...
Teme-te disto! Vem cá, para que te cinja a cabeça com hera. Em nossa companhia, aos deus rende homenagem.

Penteu
Afasta a mão, e vai-te aos báquicos mistérios te entregar!
Acaso teu desvario pretendes propagar até mim?
De teus absurdos o mestre, a esse com penas hei de punir! Que alguém se dirija já para o sítio, de onde as aves ele observa, com as varas e o tridente, às avessas tudo voltai, as coisas todas removei, de alto a baixo, e aos ventos e procelas suas coroas desamparai...
Vós outros a cidade percorrei, no encalço desse efeminado estrangeiro, que dissemina o flagelo recente entre as mulheres e nossos lares lacera.
E logo que o agarreis, trazei-o agrilhoado ante mim, para que do suplício da lapidação ele pereça, após ver o amargo fim dos seus ritos em Tebas.

Tirésias
Desgraçado, tu não sabes o que dizes!
Antes, tinhas a mente turbada, agora possui-te o furor.
Vamos, ó Cadmo, e façamos preces por este homem, embora sendo cruel,
e pela nossa cidade ao deus, para que ele nada faça de estranho. Segue-me, e a vara engrinaldada de hera traz, o meu corpo vê se sustentas; o mesmo farei quanto ao teu.
Vergonhoso seria que nós, dois anciãos, caíssemos. Vamos!
A Baco, filho de Zeus, temos de servir.
Que Penteu de penas portado não seja a este lar que é o teu, Cadmo! Pela mântica não falo, mas pelos fatos - insensato que sem senso
fala!

(Tirésias e Cadmo saem.)

1.º Estásimo

Coro

Estrofe 1.a.
Piedade, dos deuses soberana, Piedade, que sobre a terra
as áureas asas alongas, de Penteu as palavras apreendes?
Apreendes a sacrílega insolência contra Brómio, filho de Sémele, ele, dos alegres festins de formosas coroas, o senhor, ele, dos bem-aventurados o primeiro? É da sua tarefa os tíasos conduzir,
ao som da flauta rir e nossos cuidados apaziguar, quando o suco da uva
no sacro banquete reluz, e em festins de hera cingidos somo entre os homens o crater derrama...

Antiestrofe 1.a.
Das palavras sem freio e da ímpia loucura, desventura é o termo!
Uma bem repousada existência e um bom senso firme mantêm e conservam nosso lar. Do longínquo éter habitantes embora, as ações dos mortais os Celícolas observam.
Sabedoria não é sensatez, nem o é raciocinar acima de mortal.
Curta é a vida; se para lá da medida alguém busca a grandeza, os bens presentes não sustentará.
De loucos são tais hábitos, e de insensatos, a meu ver.

Estrofe 2.ª
Quem me dera ir para Chipre, de Afrodite a ilha, lá onde reinam, do coração dos mortais sedução, os Amores!
Ou a Pafos, a quem as correntes de cem embocaduras do bárbaro rio,
em lugar das chuvas, fertilizam!
Ou ao mais aprazível sítio, a Piéria, das Musas morada,
do Olimpo sacra vertente!
Conduz-me para lá, ó Brómio, Brómio, o deus Evoé, das Bacanais o arauto!
Lá estão as Graças!
Lá está o Desejo! Lá, às Bacantes as orgias é dado celebrar!

Antiestrofe 2.ª
O deus, filho de Zeus, com os festins se regozija, ele ama da felicidade a doadora, a Paz, deusa da juventude.
Por igual, ao rico e ao pobre ele oferta o vinho delicioso, das penas olvido.
Repudia quem tal não apreciar: dia e noite a ventura e a vida desfrutar,
no bom senso o coração e o espírito manter, à margem dos imoderados.
O que a multidão ignara aceitou e pratica, quero-o também!

2.º Episódio

(Os servos de Penteu trazem Dioniso acorrentado. Um deles fala.)

Servo
Penteu, ei-nos trazendo capturada a presa pela qual nos enviaste; não foi em vão que marchamos.
A fera que aqui está foi-nos dócil e não pretendeu evadir-se, antes de seu grado as mãos ofertou, e sem empalidecer, sem alterar a face cor de vinho, sorrindo, a acorrentá-lo e a trazê-lo nos incitou, enquanto aguardava, tornando-me fácil a tarefa.
Eu, confuso, disse-lhe: "Estrangeiro, não é por mim que te arrasto, mas por Penteu, que tal me ordenou."
Quanto às Bacantes, que tomaste e encerraste nos públicos cárceres, em grilhetas algemadas, libertas se foram através dos campos, saltando e o divino Brómio invocando, dos pés por si se soltaram as cadeias,
das portas sem mão mortal os ferrolhos se afrouxaram.
Veio este homem, para Tebas tornar plena de maravilhas. Quanto ao resto, é a ti que pertence atender.

Penteu
Desprendei-o! Em minhas redes caído, por veloz que seja, não me escapará.
Não sem beleza teu corpo é, ó estrangeiro, pelo menos para as mulheres; por isso em Tebas surgiste; teus longos e anelados cabelos, não peleja, mas paixão denunciam, pela face dispersos...
A nívea pele que tens, não é por falta de cuidados - dos raios do sol resguardada, não da sombra.
Com tal perfeição a Afrodites cativas...
Qual a tua origem, primeiro me dirás.

Dioniso
Fátuo não sou; simples é de expor.
Já ouviste falar do Tmolo fecundo em flores?

Penteu
Sim, como um círculo, a cidade de Sardes envolve.

Dioniso
De lá venho, a Lídia é a minha pátria.

Penteu
Donde são os mistérios que à Hélade trazes?

Dioniso
Dioniso nos iniciou, o filho de Zeus.

Penteu
Um Zeus tendes por lá, de novos deuses criador?

Dioniso
Não: apenas aquele que a Sémele nestes lugares se uniu.

Penteu
Deu-te ordens de noite ou à tua vista?


Dioniso
Nos olhos o olhei, e os ritos me entregou.

Penteu
Dessas orgias por ti obtidas, qual a natureza?

Dioniso
Aos não iniciados vedadas estão as coisas secretas.

Penteu
Daqueles que os acolhem, qual o proveito?

Dioniso
Não é justo que o saibas, mas profícuo é conhecê-los.

Penteu
De astúcia usas, para eu mais querer escutar.

Dioniso
Os sacros mistérios rejeitam a piedade.

Penteu
Viste claramente visto o deus, como era ele?

Dioniso
A seu grado, não fui eu quem o determinou.

Penteu
Outra destra evasiva, para não falares.

Dioniso
Ao ignorante, o que fala com senso parece não pensar bem.

Penteu
Para aqui trouxeste primeiro o teu deus?

Dioniso
Todos, de entre os bárbaros, celebram os mistérios.

Penteu
É que eles são menos sensatos que os Helenos!

Dioniso
Nisto, são-no bem mais, ainda que os costumes divirjam.

Penteu
É de noite ou de dia que os ritos se praticam?

Dioniso
De noite sobretudo; mais sacras são as sombras.


Penteu
Dolo temerário para as mulheres é!

Dioniso
Atos indecorosos traz também o dia.

Penteu
Com pena serás punido, por teus perversos sofismas!

Dioniso
E tu, por irreverência e impiedade para com o deus!

Penteu
Ó insolente Bacante, em discutir tão versado!

Dioniso
Que irei sofrer, diz? Que dano me farás?

Penteu
Teus delicados caracóis primeiro cortarei...

Dioniso
Sacros cabelos, para o deus os criei!

Penteu
Depois, o tirso que na mão seguras entregarás.

Dioniso
Vem arrebatá-lo! De Dioniso é atributo!

Penteu
No recôndito dos cárceres, teu corpo custodiado será.

Penteu
O próprio deus me libertará, quando eu desejar.

Penteu
Quando entre as Bacantes o invocares...

Dioniso
Está perto agora e quanto padeço ele vê.

Penteu
Onde? À minha vista não é visível...

Dioniso
Onde eu estou. Mas, ímpio que és, não te apercebes.

Penteu
Prendei-o! Este homem a mim e a Tebas ultraja!


Dioniso
Não me acorrentem! Sensato, a um insensato falo!

Penteu
Acorrentar-te irei; mais poderoso que tu eu sou.

Dioniso
Desconheces o que seja a tua vida, o que fazes e quem és!

Penteu
Sou Penteu, filho de Agave e vergôntea de Equíon!

Dioniso
À desdita propício é teu nome!

Penteu
Vai-te! Aprisionai-o aqui perto, nas estrebarias dos cavalos, para que, além das negras trevas, nada veja!
Lá podes bailar... Quanto às tuas sectárias, cúmplices dos teus erros, ou as venderei, ou de suas mãos o fragor e o vibrar do couro
apartando, minhas servas ao tear farei.

Dioniso
Estou pronto a ir, pois o que não tem de ser, não devo sofrê-lo. De tais opróbrios o repressor,
Dioniso te punirá, aquele que afirmas não existir.
Iníquo para nós, a ele vais acorrentar.

(Saem Dioniso, acompanhado pelos servos, e Penteu.)

2.º Estásimo

Coro

Estrofe
Ó filha de Aqueloo,
Dirce divina, ninfa formosa, noutro tempo, em tua nascente, ao rebento de Zeus acolheste, quando, para sua coxa, da chama imortal, Zeus pai o arrebatou, estas palavras bradando:
“Anda, Ditirambo, para o meu seio viril podes entrar! Como Baco,
eu te proclamo para os Tebanos, para que assim sejas denominado!”
E tu, bem-aventurada Dirce, repudias-me, a mim, que para as tuas margens conduzo os tirsos coroados!
Por que me repeles? Por que te esquivas?
Pelo pâmpano em cachos abundante,pela dádiva de Dioniso, eu te
juro,que em Brómio terás ainda de atentar.

Antiestrofe
Quanta, quanta cólera exala da terra o filho, a vergôntea do dragão,
Penteu, aquele que Equíon o Ctónio procriou!
Monstro de fero olhar, não humana criatura, tal sanguinário
gigante, rival dos deuses, em suas redes, a mim, servo de Brómio, vai colher!
Já no âmago do palácio,o guia dos tíasos ele tem em obscuros cárceres oculto!
Isto vês, ó filho de Zeus, Dioniso, os teus profetas em luta com a fatalidade!
Desce, brandindo o áureo tirso, do alto do Olimpo, reprime a insolência do insano sanguinário.

A Nisa, berço das feras, ó dos tirsos portador, ó Dioniso, conduzes os tíasos, ou aos cumes Coricianos?
Em arvoredo profusos, talvez aos remansos do Olimpo, onde outrora Orfeu tocando cítara, com seus cantos as árvores atraiu, atraiu as feras bravias...
Piéria bem-aventurada, Évio te venera, ele virá teus coros dirigir junto às Bacantes; o Áxio de céleres correntes, com as desenfreadas Ménades dançarinas transporá, e os Lídias, progenitor da prosperidade, e aos mortais da ventura doador, esse, dizem, que o país dos formosos corcéis com águas aprazíveis fecunda.

3.º Episódio

(Ouvem-se os clamores de Dioniso no interior do palácio.)

Dioniso
Iô!
Escutai-me, escutai a minha voz,
Iô, Bacantes, Iô, Bacantes!

Coro
Quem é? Quem é? Donde vem o apelo de Évio, que me reclama?

Dioniso
Iô! Iô! Clamo de novo,eu, o filho de Sémele e de Zeus!

Coro
- Iô! Iô! Senhor! Senhor!
Vem a nós, ao nosso
Tíaso, ó Brómio, Brómio!

Dioniso
Énosis divina, abala o sono desta terra!

Coro
Ah! Ah!
Já de Penteu a mansão se desmantela e desaba!
Dioniso está no palácio!
Venerai-o! - Venerado é!
A pétrea arquitrave viste, sobre as colunas deslocar-se? É Brómio que brada sob esse teto!

Dioniso
A chama fulgurante do raio ateia,
E o palácio de Penteu incendeia, incendeia!

Coro
Ah! Ah!
O fogo não vês, não podes discernir, à roda do sacro túmulo de Sémele?
É a chama da trovoada, que ela outrora deixou, quando do raio ferida.
Ao solo os trêmulos corpos arremessai,
Ó Ménades, arremessai! O Senhor Assalta e revolve o palácio,O filho de Zeus!

(As Ménades prosternam-se e Dioniso sai do palácio.)

Dioniso
Ó mulheres bárbaras, que pânico imenso vos tomou, para que estejais prostradas por terra? Ao que parece, sentíeis que Baco abalava o palácio de Penteu. Vamos! Erguei vosso corpo e repeli de vossa carne o pavor, tende confiança!

Coro
Ó luz suprema, que de Evoé o delírio nos concedes, com teu encontro rejubilo, sozinha em minha solidão!

Dioniso
Apoderou-se de vós o desalento, quando fui remetido por Penteu às sombrias masmorras, para aí ser arremessado?

Coro
Como evitá-lo? Quem seria o meu guardião, se a má sorte te atingisse?Como pudeste libertar-te desse ímpio?

Dioniso
Por mim só me soltei, sem esforço e sem pena.

Coro
Ele não te ligou e agrilhoou as mãos?

Dioniso
Aí o iludi, porque, crendo acorrentar-me, nem me tocou nem atou, embora acalentasse a esperança.
Achando um touro na estrebaria onde me aprisionaram, quis algemar-lhe os joelhos e os cascos com grilhetas, resfolegando de furor, com o suor a cair-lhe em gotas do corpo, mordendo os lábios com os dentes; eu permanecia perto e, sentado, observava. Nesta altura exata, Baco surgiu, o palácio abalou e no túmulo materno acendeu uma chama. Ao avistá-la, julgou que o palácio se consumia.
Pula daqui, pula dali, ordenou aos servos que lhe trouxessem o Aqueloo; ao trabalho se lançaram, esforço vão!
Pensando que me evadira, a tal obra pôs termo e precipitou-se, arrebatando a negra espada de dentro do palácio...
Brómio, então, ao que julgo - digo o que me pareceu - pousou um fantasma no palácio; arrojando-se contra o luzente pedaço de éter trespassa-o, supondo degolar-me...
Além destas, outras afrontas lhe destinou Baco: o palácio todo sacudiu, e arruinou-o de cima a baixo.
Caro lhe custará o ter-me acorrentado. Com a fadiga afrouxou, o gládio repudiando. Mortal que é, contra um deus ousou empreender peleja! Saindo eu silencioso do palácio, vim ante vós, sem curar de Penteu.
Se bem me parece - ressoa o seu tacão de dentro do palácio - na soleira vai já surgir. Depois destas coisas, que dirá?
Por grande que seja a sua ira, com calma a enfrentarei.
Ao homem sensato cabe cultivar uma disposição equilibrada.

(Penteu sai do palácio.)

Penteu
Acossou-me a desgraça! Escapou-me o estrangeiro que com grilhetas subjugara havia pouco!
Ah! Ah!
Ei-lo aqui! Que é isto? Como te evadiste e apareces no limiar da minha morada?

Dioniso
Detém-te! Deves frear um pouco teu furor!

Penteu
Como lograste fugir, às cadeias escapando?

Dioniso
Não te disse - ou não ouviste - que alguém me libertaria?

Penteu
Quem? Novas histórias sempre trazes...

Dioniso
Aquele que para os mortais cria o pâmpano em cachos abundante.

Penteu .......................

Dioniso
Em tal censura está a glória de Dioniso!

Penteu
As portas todas, em redor, ordeno que encerrem!

Dioniso
Para quê? Os muros aos deuses podem deter?

Penteu
Esperto, esperto és, não naquilo que devias.

Dioniso
Antes no que é preciso, mais esperto eu sou. Presta primeiro atenção às palavras daquele que da montanha traz novas para ti.
Fico ao teu lado; não fugirei.

(Entra o boieiro.)

Mensageiro
Ó Penteu, senhor da Terra de Tebas, do Citéron eu venho, lá onde nunca da neve caída a brancura deslustra!

Penteu
As veneráveis Bacantes eu vi, essas que, da cidade, partiram como setas, os seus níveos pés num frenesi.
A ti e ao país, Senhor, eu venho anunciar os prodígios que praticam, aos milagres superando.
Anseio por saber, se com sinceridade devo relatar tudo, ou moderar minhas palavras.
O arrebatamento do teu espírito temo, Senhor,
Os acessos da tua cólera e tua régia índole.

Penteu
Fala! Totalmente impune ante mim estarás.
Aos que cumprem o seu dever, a ira não alcança.
Quanto mais estranho o que disseres das Bacantes, tanto mais, sobre aquele que suas artes insinuou entre as mulheres, a justiça se abaterá.

Mensageiro
A manada de bois trepara havia pouco às alturas, para o pastoreio, quando o sol seus raios dardeja, a terra aquentando...
Três tíasos vejo então, três coros de mulheres, um, dominado por Autónoe; o segundo, por Agave, tua mãe; o terceiro era o coro de Ino.
Todas dormiam, com os corpos reclinados,umas com as costas apoiadas à ramagem de um abeto, outras em folhas de carvalho... No solo, a cabeça
ao acaso e castamente pousada, não como tu dizes - embriagadas pelo vinho e pelo som do loto e buscando, isoladas, o amor no bosque.
Elevando-se entre as Bacantes, tua mãe lançou
O brado ritual, ao sono os corpos furtando,logo que dos bois cornígeros o mugido escutou.
O sono profundo das pálpebras apartando, todas se ergueram; sua compostura era maravilha de ver jovens, velhas e virgens do jugo ignorantes aidna!
Sobre os ombros, os cabelos deixaram cair primeiro,as nébrides levantaram depois, das quais os cordões,lassos, pendiam soltos; as peles mosqueadas cingiram com serpentes que lambiam as faces delas...
Em seus braços seguravam corças e crias de lobo,seu níveo leite às feras ofertando,jovens mães, de seio túmido ainda,que os filhos abandonaram. Enfeitam-se com coroas de hera, folhas de carvalho e flores de alegra-campo...
Uma, tomando o tirso, contra uma rocha bateu; de água límpida, uma torrente dali jorrou...
Outra, com o nártex escavou da terra o solo,e o deus uma nascente de vinho fez brotar...
Aquelas que sentiam ânsia da branca bebida,com as pontas dos dedos a terra esgaravataram,abundante leite recolhendo. Dos tirsos,ornados de hera, um fluxo de doce mel gotejava...
Ah! Se lá estiveras, ao deus que ultrajas havias de dirigir preces, depois de veres tais prodígios!
Boieiros e pastores nos reunimos, discutindo uns e outros nosso parecer sobre os prodígios praticados, tão dignos de admiração.
Um, mais conhecedor da cidade e dos discursos, a todos falou: “Ó vós que os sacros planaltos das montanhas habitais, quereis dar caça a Agave, mão de Penteu? Se dos báquicos coros a reconduzirmos, grato será ao Senhor.” Pareceu-nos dizer bem. Na folhagem das moitas, bem ocultos nos escondemos. Elas, a uma hora certa, o tíaso à báquica corrida impeliram;
de uma só voz, ao filho de Zeus, a Iaco, a Brómio, elas invocaram. A montanha toda delirava e as feras; na corrida, nada fica imóvel...
Ao meu alcance passou Agave saltando;
Pretendendo agarrá-la, de um pulo, a moita deixei, onde oculto me encontrava.
Ela clamou: “Ó céleres pernas minhas, por homens somos acossadas! Acorram, acorram, com vossas mãos armadas de tirso!”
Pela fuga nós nos furtamos ao dilacerar das Bacantes, porém, sobre os nossos bois que pasciam erva, se abatem, com mão sem ferro.
A uma vimos, uma vaca de fecundos úberes que mugia, em suas mãos ambas tomar; outras, a dilacerar vitelas se dispuseram...
Terias visto costelas e cascos fendidos, arremessados em todas as direções, suspensos dos abetos, a gotejar sangue...
Touros enfurecidos e de hastes em riste, logo a seguir por terra jaziam, os corpos abatidos por milhares de mãos femininas...
A carne que os revestia mais depressa despedaçaram, que tu sobre a real pupila a pálpebra descerias...
Tal as aves que voam, em corrida se precipitaram para as planícies que se estendem ao longo das correntes do Asopo e que aos Tebanos a espiga de belas bagas fazem brotar.
Sobre Hísias e Étrias, que da montanha do Citéron a falda habitam, caíram como horda hostil, devastando tudo e de cima a baixo as coisas revolvendo. Arrebataram as crianças das casas.
Quanto nas espáduas pousaram, sem vínculos a prender, nada no negro solo tombou, nem o bronze nem o ferro. A seus anelados cabelos o fogo enlaçou, sem os queimar. Saqueados pelas Bacantes, os camponeses precipitaram-se, coléricos, para as armas.
Prodígio espantoso se viu então, Senhor! O ferro dos dardos não as fazia sangrar...
Elas, projetando os tirsos das mãos, feriam e punham em debandada os homens, embora sendo mulheres, mas validas de algum deus!
Ao lugar donde haviam partido, seus passos as levaram de novo às nascentes que o deus para elas alimentara; o sangue banharam e, gota a gota, a pele de suas faces as serpentes lamberam com a língua...
A este deus, quem quer que seja, ó Senhor,
em tua cidade acolhe! É notável em tudo, e dizem que ele, assim eu o escutei, o pâmpano que alivia as penas doou aos mortais.
Não havendo vinho, não havia amor, não restava deleite algum para os homens.


Coro
Palavras livres eu temo dizer ao tirano; todavia, eu as proferirei:
Dioniso não nasceu inferior a nenhum deus!

Penteu
Eis que já perto de nós ateia, como uma fogueira, a afronta das Bacantes, que ante os Helenos nos ultraja!
Não devemos perder tempo. Corre até à Porta Electra, apela para todos os portadores de escudos, para todos os cavaleiros de velozes corcéis, quantos manejem o escudo e vibrem com a mão a corda dos arcos... Vamos combater contra as Bacantes!
Nada há mais nocivo que suportar que nos subjuguem as mulheres!

Dioniso
Não queres crer, nem escutar as minhas palavras, ó Penteu! Não obstante os tratos que da tua parte sofri, digo-te que não é lícito levantar armas contra um deus, mas se deve permanecer em paz. Brómio não permitirá que expulse as Bacantes dos montes onde evoé ecoou!

Penteu
Não pregues mais! Das cadeias não escapaste?
Aproveita-o. Pretendes que te puna de novo?

Dioniso
Oferendas lhe faria, em lugar de violência e rebeldia contra o seu aguilhão... Um mortal contra um deus!

Penteu
Oferenda justa lhe farei: sangue feminino dos flancos do Citéron escorrendo profuso...

Dioniso
Fugireis todos! Vergonhoso é que os escudos brônzeos sejam desbaratados pelos tirsos das Bacantes...

Penteu
Nas garras do estrangeiro não acho saída,
Que me obedeça, quer atue por si, não se cala!

Dioniso
Meu senhor, harmonizar as coisas podemos ainda...

Penteu
Que fazer? Hei-de ser servo dos meus servos?

Dioniso
Até aqui, sem armas, as mulheres trarei.

Penteu
Ai! Que um dolo maquinas contra mim!


Dioniso
Qual, se anseio salvar-te com as minhas artes?

Penteu
Algum pacto fizestes, para celebrardes sempre Baco.

Dioniso
Sim, fizemos um pacto, está certo - mas com o deus!

Penteu
Minhas armas trazei aqui, e tu, às tuas palavras põe termo.

Dioniso
Olha lá!
Gostarias de vê-las acampadas nas montanhas?

Penteu
Muito! Muito peso em ouro eu daria até!

Dioniso
Por que te toma essa ânsia imensa?

Penteu
Ficarei angustiado, se as vir embriagadas.

Dioniso
Doloroso te é, e de teu grado queres ver?

Penteu
Digo-te que sim: em silêncio e pelos abetos dissimulado.

Dioniso
Ela encontrarão o teu rasto, mesmo que te ocultes bem...

Penteu
Falas com acerto: às claras, não!

Dioniso
Teu guia serei. Para a jornada estás pronto?

Penteu
Leva-me o mais célere que possas. Aborrece-me a tua demora.

Dioniso
Envolve o teu corpo com um peplos de linho.

Penteu
O quê? Homem que sou, a mulher passarei?

Dioniso
Temo que te matem, se lá virem que és homem.

Penteu
Falas bem; já há muito te mostraste esperto...

Dioniso
Estas coisas Dioniso me inspirou.

Penteu
Como executar o que tão bem me aconselhas?

Dioniso
Vamos ao palácio; eu vou vestir-te.

Penteu
Vestir o quê? Um traje feminino? O pudor me detém.

Dioniso
Já não tens desejo de espiar as Ménades?

Penteu
Queres descrever-me o traje que hei de envergar?

Dioniso
Comprida cabeleira em tua cabeça colocarei.

Penteu
Qual a segunda peça do meu disfarce?

Dioniso
Um peplos até os pés; na fronte, uma mitra.

Penteu
Além dessas, que outra coisa me vais por?

Dioniso
Um tirso na mão e uma pele de gamo mosqueada.

Penteu
Não serei capaz de vestir uma roupa de mulher.

Dioniso
Sangue correrá, se às Bacantes provocares.

Penteu
É justo; vamos observar primeiro.

Dioniso
É mais sensato que granjear males com o mal.

Penteu
Como atravessas a cidade, sem os Cadmianos saberem?


Dioniso
Por ermos caminhos iremos. Eu te conduzirei.

Penteu
Prefiro isso, a que as Bacantes zombem de mim.
Entremos no palácio... e decidirei o que parecer melhor.

Dioniso
Seja! Estou pronto a preparar-te tudo.

Penteu
Vou-me: ou marcharei, tomando as armas, ou os teus conselhos acatarei...

(Penteu entra no palácio.)

Dioniso
Mulheres, caído na rede está o homem.
Vai alcançar as Bacantes, mas será punido com a morte.
Dioniso, a ti compete agir; não longe te encontras.
O castigo não tarda! Penetre primeiro seu espírito um impetuoso delírio... Se conservar o bom senso, não quererá envergar uma veste de mulher; se desaparecer o bom senso, envergá-la-á.
Ao escárnio dos Tebanos pretendo expô-lo, conduzindo-o pela cidade, disfarçado de mulher, ele, de ameaças tão pródigo outrora!
Tenho de ir ajustar a Penteu a veste, com que há de alcançar o Hades, às mãos da mãe estrangulado. Reconhecerá o filho de Zeus,
Dioniso, que se mostra, no fim, o mais temível dos deuses, ele, o mais clemente para os humanos!

(Dioniso entra no palácio.)

3.º Estásimo

Coro

Estrofe
Nas danças que duram toda a noite
irei enfim pousar meus alvos pés,
tomada de delírio, o colo
arremessando ao éter orvalhado...
Tal a corça na erva tenra
do prado, brincando com delícia
depois que se furtou da funesta
caça e da vigia, saltando
as bem entrançadas redes...
Mas com seus brados o caçador
à corrida os cães incita:
com esforço e corridas em turbilhão,
pula na planície
ao longo do rio, desfrutando
os lugares ermos de homens os rebentos
da floresta de folhagem umbrosa...
Que será a sabedoria? Haverá dadiva
mais honrosa dos deuses para os mortais
que segurar com mão vitoriosa
a cabeça dos inimigos?
O que é honroso, deleitoso é sempre!

Antiestrofe
Com mansidão se move, mas é
infalível, dos deuses
o poder. Ele castiga, dentre os mortais,
aqueles que prestam culto à iniquidade,
e aos deuses não veneram,
com seus espírito perverso.
Ele oculta, com astúcia,
a lenta marcha do tempo
ao ímpio, e acossa-o. Nada
que ultrapasse as tradições
se deve conhecer e exercer.
Custoso não é reconhecer
a força da divindade,
quem quer que ela seja,
e que o que se aceita ao longo do tempo
é verdade eterna que na natureza se funda.
Quer será a sabedoria? Haverá dádiva
mais honrosa aos deuses para os mortais
que segurar com mão vitoriosa
a cabeça dos inimigos?
O que é honroso, deleitoso é sempre!
Venturoso aquele que às procelas
do pélago escapa e o porto alcança!
Venturoso aquele que suas penas
subjuga! Por vários métodos, uns aos outros
em dita e poder superam.
Múltiplos os homens, múltiplas
as esperanças suas, umas
em dita se acabam
para os mortais, outras se esfumam...
Quem da ventura do dia a dia desfruta,
eu tenho por feliz!

4.º Episódio

(Dioniso sai do palácio e volta-se para trás, para chamar Penteu.)

Dioniso
Tu, que de ver o que não deves tão desejoso estás, e o que é vedado te é solicitas, a ti falo, ó Penteu, sai do palácio e oferece-te a meus olhos, envergando uma veste de mulher, de Ménade, de Bacante, tu, o espia de tua mãe e suas sectárias...

(Entra Penteu, vestido de Bacante e com o tirso na mão.)

Uma das filhas de Cadmo nas feições me pareces

Penteu
Eu estou em crer que vejo dois sóis...
E vejo Tebas, a cidade das sete portas, a dobrar...
A ti, que me conduzes, um touro eu te creio, e na tua cabeça despontaram chifres...
Já eras dantes uma fera! Em touro te tornastes!

Dioniso
O deus, antes tão benigno, escolta-nos como aliado. Agora vês o que não deves.

Penteu
A quem me assemelho? O semblante do Ino tenho, ou o de Agave, minha mãe?

Dioniso
Vendo-te, a elas creio ver.
Mas olha que deslocaste do sítio um anel de cabelo, que já não está como eu há pouco em tua mitra ajustara.

Penteu
Foi lá dentro, que ao agitá-lo e movê-lo, do sítio o desviei, quando do delírio tomado.

Dioniso
A mim, como teu aio, me compete compô-lo de novo. Endireita a cabeça!

Penteu
Ei-la, compõe-me! Em tuas mãos estou!

Dioniso
Tua cintura está solta, e ainda as pregas do teu peplos se alongam em desordem nos tornozelos...

Penteu
Esse é também o meu parecer, quando ao pé direito.
Daqui, o peplos alcança o meu tacão.

Dioniso
Vais considerar-me os mais caros dos teus amigos, quando vires as Bacantes castas, e não como dizias.

Penteu
Pegarei no tirso com a mão direita ou com esta, para parecer mais uma Bacante?

Dioniso
Com a direita, e ao mesmo tempo levanta o pé direito. A mudança de tua mente bendigo!

Penteu
Não poderia levar as encostas do Citéron, junto com as Bacantes, em meus ombros?

Dioniso
Podias, se desejasses. Dantes, a mente sã não tinhas, agora está como deve ser.

Penteu
Tomo uma alavanca? Ou ergo-o por minhas mãos metendo o ombro ou o braço sob o seu cume?

Dioniso
Não derrubes os templos das Ninfas, e a morada de Pã, onde a flauta ressoa...

Penteu
Falas bem: não devemos vencer pela força as mulheres. Nos abetos ocultarei o meu corpo.

Dioniso
Esconde-te no esconderijo, onde deve esconder-me um espia astuto que as Ménades vem ver...

Penteu
Olha! Como as aves nas moitas, até já creio contemplá-las, às blandícias do amor cativas...

Dioniso
Por isso mesmo és mandado vigiar.
Tomá-las podes, se tomado não fores primeiro...

Penteu
Leva-me através da terra tebana.
Sou o único homem que, entre todos, ousa tal!

Dioniso
Só tu a penar pela cidade, só tu!
Por isso te aguardam pelejas dignas de ti.
Segue-me! Teu guia salvador eu sou.
Outrem há de trazer-te de lá...

Penteu
A que me deu à luz...

Dioniso
De todos contemplado...

Penteu
Para tal vou.

Dioniso
Transportado virás...

Penteu
Afagado dizes que serei.

Dioniso
Nas mãos de tua mãe...

Penteu
Amimar-me pretendes.

Dioniso
E que mimos!...

Penteu
Alcançarei o que mereço.

(Penteu dirigi-se para a saída.)

Dioniso
Desgraçado dos desgraçados, destino mais desgraçado buscas, tu encontrarás a glória que se ergue até nos céus!
Estendei as mãos, Agave e vós, filhas de Cadmo, do mesmo sangue oriundas! Este jovem que aqui está eu conduzo ao grande combate! Vencedor eu serei e Brómio... Os fatos dirão o resto.

(Sai Dioniso.)

4.º Estásimo

Coro
Estrofe
Correi, céleres mastins da Loucura, à montanha correi,
lá onde as filhas de Cadmo o tíaso detêm!
A elas provocai
contra aquele que, em túnica de mulher encoberto,
enlouquecido, as Ménades vai espiar!
A mãe será a primeira a vê-lo, do alto do rochedo polido
ou de uma árvore
espreitando, e pelas Ménades bradará:
“Quem é este, que às Cadmianas
que correm pelos montes acossa, e à montanha à montanha veio,
veio, ó Bacantes? Quem o deu à luz?
Não foi do sangue
de mulher gerado, mas de alguma leoa
ou da estirpe das Górgonas Líbias!”
Venha a justiça resplandecente, venho do gládio portadora
e fira de morte a garganta
do ímpio sem deus, sem leis, sem justiça, vergôntea
de Equíon, pela terra gerado!

Antiestrofe
Àquele que, com falsos juízos e cólera criminosa,
contra as orgias tuas, ó Baco, e de tua mãe,
de coração embravecido
e de louca audácia tomado, se apresta,
como se o invencível pudesse vencer pela força,
a esse, a morte é que vem equilibrar o espírito,
nas coisas divinas inexorável.
Comportarmo-nos como mortais, livra-nos de desgostos.
A sabedoria ao sábio deixo:
buscá-la me apraz; contudo, há outros bens preciosos
e manifestos. Possa a minha vida caminhar para a beleza,
e, de dia e de noite,
na pureza e na piedade, rejeitando as práticas
contrárias à justiça, dignificar os deuses!
Venha a justiça resplandecente, venha do gládio portadora
e fira de morte a garganta
do ímpio sem deus, sem leis, sem justiça, vergôntea
de Equíon, pela terra gerado!

Epodo
Mostra-te como touro, ou um dragão de múltiplas cabeças
ou um leão ardente como a chama!
Vamos, ó Baco, ao caçador de Bacantes,
com rosto sorridente, acolhe nas redes
de morte àquele que há de ser surpreendido
no bando das Ménades!

5.º Episódio

(Entra o Segundo Mensageiro)

Mensageiro
Ó casa florescente outrora na Hélade, casa do ancião de Sídon, que o filho da Terra, do dragão, a colheita no nosso solo semeou, sendo servo, mesmo assim, quanto te pranteio!

Coro
Que há? Das Bacantes algo de novo anuncias?

Mensageiro
Morte é Penteu, o descendente de Equíon.

Coro
Divino Brómio, deus poderoso te mostras!

Mensageiro
Que dizes? Que palavras proferes? Com os males que oprimem os meus amos vos regozijais, ó mulheres?


Coro
Evoé, clamo, estrangeira que sou, em meus bárbaros cantos!
Já das cadeias o temor não me aterra.

Mensageiro
Os Tebanos tão cobardes crês

Coro
É Dioniso, Dioniso, e não Tebas, que manda em mim!

Mensageiro
Tens atenuante, mas com as desventuras alheias exultar, ó mulheres, não está bem!

Coro
Diz-me, conta-me, de que morte morreu o perverso maquinador de perversas manobras?

Mensageiro
Depois que da terra de Tebas deixamos as moradas, e do Asopo a corrente passamos, subimos as encostas do Citéron, Penteu comigo - ao meu senhor seguia - e o estrangeiro, guia da nossa expedição.
Primeiro, num vale verdejante nos detivemos,os passos e as vozes conservando sufocados, para ver sem sermos vistos.
Era uma garganta rochosa, sulcada de regatos, e de pinheiros sombreada, onde as Ménades acampadas, em aprazíveis tarefas se ocupava: uma, a seus tirsos já desguarnecidos, com tufos de hera de novo coroavam...
Outras, como poldras que o lavrado jugo largara, de Baco o cantar entoavam à porfia...
O desventurado Penteu, como não via o bando das mulheres, clamou, “Ó estrangeiro, do sítio onde estou, os meus olhos às Ménades corruptas não alcançam; se trepar desta escarpa para um aberto altaneiro, as torpezas das Ménades discernirei comprecisão.
Ä partir de então, vi este prodígio do estrangeiro: agarrando um ramo de abeto que nos ares se erguia, baixa-o, baixa-o, baixa-o até o solo escuro...
E dobrava-se como um arco ou como uma roda recurva, que arrasta o seu curso enquanto se traça com o compasso a sua volta.
Assim o estrangeiro, segurando nas mãos o tronco alpestre, por terra o vergava, realizando um feito que não era de um mortal.
Tendo instalado Penteu na ramagem do abeto, deixou que o ramo de entre suas mãos se soltasse suavemente, cuidando para que ele não caísse, e, muito direito, ao éter direito se elevasse, com o meu senhor montado lá no cimo.
Mas a si se mostrava que às Ménades observava.
Logo que o viram instalado no alto, já de nossos olhos o estrangeiro se apartara e do éter uma voz, que parecia ser de Dioniso, clamava: “Ó jovens, trago aquele que de vós, de mim e de minhas orgias escarnece. Castigá-lo podeis, pois!”
Enquanto tais palavras proferia, entre a terra e o céu, o brilho de uma luz terrível se acendeu.
Silenciou o éter, silenciou do vale frondoso a folhagem, das feras o brado mais não se ouviu...
Elas, não apreendendo logo o apelo com seus ouvidos, ergueram-se, muito direitas, e a vista volveram...
De novo ele as chamou. Reconhecendo de Baco o claro mando, as filhas de Cadmo, ágeis não menos que pombas, precipitaram-se, correndo com os pés em louca correria,
Agave, a mãe, e as irmãs, do mesmo sangue oriundas, e as Bacantes todas... Do vale a torrente e as ravinas transpuseram, tomadas de sopro divino.
Avistando o meu senhor montado no abeto, de início treparam num rochedo como uma torre, e arremessavam-lhe pedras com violência; depois, com ramos de abeto o atacaram.
Outras atiraram os tirsos aos ares, contra Penteu, desventurado alvo, mas não o atingiram.
Lá no alto, fora do alcance da cólera delas, estava o desgraçado, preso sem evasão.
Por fim, quebrando com fragor ramos de carvalho, arrancaram as raízes com aquelas alavancas sem ferro...
Mas o trabalho não obedecia aos seus anseios, e Agave bradou: “Vamos, fazei um círculo, agarrai o tronco, ó Ménades, para que a fera trepadora capturemos, não vá revelar do deus as danças secretas!” Milhares de mãos no abeto se abateram e ao solo o arrancaram...
Do alto, lá bem do alto tombou, derrubado no solo, milhares de gemidos soltando,
Penteu. O fim próximo ele compreendia.
A mãe, sacerdotiza primeira, ao homicídio preludia e sobre ele se lança. Dos cabelos a mitra ele arredou, para que o reconhecesse e não matasse a infortunada Agave; e falou, a face dela acariciando: “Mãe, sou eu, o teu filho Penteu, que na mansão de Equíon deste à luz; apieda-te de mim, ó mãe, e, não obstante meus erros, um filho teu não queiras imolar!”
Expelindo espuma e as revoltas pupilas agitando, sem raciocinar como devia, por Baco dominada, sem o escutou...
Pegou no braço esquerdo pela mão, ao flanco do infeliz apoiou o pé com a sua energia, e a espádua lhe desarticulou, não apenas com a sua força, mas com a destreza que em suas mãos o deus incutira.
No outro flanco, estas mesmas coisas Ino fazia, dilacerando as carnes, e Autónoe com o bando todo das Bacantes acudia. Tudo era um confuso clamor, ele, gemendo o que o alento lhe consentia, elas, ululando. Uma levava um braço, outra um pé ainda calçado. Desguarnecidos estavam os flancos pelos dilaceramentos. Com as ensangüentadas mãos, em jeito de bola, as carnes de Penteu arremessavam.
O corpo mutilado jazia aqui e ali, partes em agrestes rochedos, parte na folhagem do bosque frondoso.
Não seria fácil de achar. Tomando a cabeça do desventurado entre as suas mãos, a mãe a segurou e, cravando-a no cimo do tirso, como se da montanha um leão fora, passeia-a pelo Citéron, deixando as irmãs nos coros das Ménades.
De sua presa funesta se orgulha e avança para as nossas muralhas, a Baco invocando, o seu camarada, o seu companheiro de caça, o que lhe deu a vitória - a quem traz um troféu umedecido de pranto.
Em louca correiria, a tal calamidade me vou escapando, antes que Agave sua morada alcance.
Praticar a moderação, e ser reverente aos deuses é a coisa melhor, e creio ainda que é o mais sensato dos bens para uso dos mortais.

(Sai o Mensageiro.)

5.º Estásimo

Coro
Dancemos por Baco, celebremos a desgraçade Penteu, vergôntea do dragão, que envergando uma veste de mulher,o nártex, do Hades penhor,e o tirso tomou, tendo como arauto de sua desventura o touro!
Bacantes cadmianas,vosso canto triunfal e glorioso se acabará
em lamentos, em prantos!
Belo combate, onde com a mão gotejando sangue,o corpo do filho se estreita!

Êxodo

Coro
Mas em direção ao palácio eu vejo correra mãe de Penteu, Agave, com olhar turvo.
O cortejo do deus Évio acolhamos!

(Entra Agave em delírio, com a cabeça de Penteu nos braços.)

Agave
Estrofe
Ó Bacantes da Ásia!

Coro
Oh! Por que me excitas?

Agave
Da montanha trazemos,para esta mansão, hera recém-cortada,
caça abençoada!

Coro
Eu vejo, e neste carro te acolho!

Agave
Sem redes a apanhei,a esta jovem cria de um leão selvagem!
Podeis vê-lo!

Coro
Em que ermo lugar?

Agave
O Citéron...

Coro
O Citéron?

Agave
Viu-o morrer.

Coro
Quem o feriu?

Agave
A honra primeira me cabe.
Nos tíasos apelidam-me de Agave, a bem-aventurada.

Coro
Quem mais?

Coro
De Cadmo...

Coro
De Cadmo o quê?

Agave
As filhas, - mas só a seguir a mim - a seguir a mim, é que a fera tocaram. Que caça tão ditosa!

Coro

Agave
Antiestrofe
Participa do meu festim!

Coro
O quê? Eu, participar, desgraçada?

Agave
É um bezerro ainda jovem,e um pelo bem delicado floresce, abundante,
na sua cabeça!

Coro
Com uma fera selvagem no pelo se parece...

Agave
Baco, hábil caçador,habilmente incitou à caça desta fera
as Ménades.

Coro
Grande caçador é o nosso soberano!

Agave
Não queres louvar-me?

Coro
Eu te louvo!

Agave
Daqui a pouco os Cadmianos...

Coro
E Penteu, de ti nascido...

Agave
Sua mãe louvará por esta presa de leão haver tomado.

Coro
Presa desmedida!

Agave
De forma desmedida granjeada!

Coro
Regozijas-te?

Agave
Rejubilo nestes grandiosos, grandes feitos e esplêndidas proezas desta caça.

Coro
Patenteia agora, ó infortunada, tua presa triunfal aos cidadãos, esse despojo que vens trazendo!

Agave
Ó vós que habitais a cidade de belas torres, no país tebano, vinde apreciar esta presa, a fera que nós, as filhas de Cadmo, abatemos,
não com dardos tessálicos presos por correias, não com redes, mas com as lâminas alvas de nossas brancas mãos... Depois disto, será lícito enaltecer-se o caçador que compra ao fabricante armas supérflluas?
Nós mesmas com as nossas mãos o agarramos, elas nos bastaram para o desmembrar.
Onde está o meu velho pai? Que venha aqui.
Penteu, o meu filho, onde está? Uma escada ele encoste às muralhas e os bem assentes degraus suba, para nos triglifos cravar a cabeça deste leão, o troféu por mim caçado.

(Entra Cadmo, seguido pelos escravos, que trazem numa padiola os restos mortais de Penteu.)

Cadmo
Segui-me, ó vós que tão doloroso fardo transportais, o de Penteu; segui-me, servos meus, ao palácio fronteiro. O seu corpo, depois de mil buscas estafar, aqui o trago; nos declives do Citéron foi achado em pedaços, nenhum deles em igual sítio recolhido, na floresta imperscrutável jazendo...
Anunciaram-me o delito das minhas filhas, quando já da cidade os muros alcançava com o velho Tirésias, depois de deixar as Bacantes.
De novo a caminho da montanha, de lá trago o corpo do meu filho massacrado pelas Ménades.
Ali, de Aristeu a esposa de Actéon a mãe, a Autónoe, eu vi, e também a Ino, que ainda sob o aguilhão sinistro erravam pela floresta...
Disseram-me que para aqui, em corrida báquica, Agave se encaminhava. Palavras vãs não escutei, ante a mim a tenho, ó terrífica visão!

Agave
Ó pai, vangloriar-te podes, com legítima vaidade, de as mais ousadas filhas ter engendrado de entre os mortais! Falo de todas, mas de mim em especial, que, das lançadeiras do tear me apartando, a mais aspirei, e capturei feras com as minhas mãos.
Nos braços trago, como vês, as primícias desta coragem, para que nos muros do teu palácio seja suspenso. Ó pai, acolhe-o em tuas mãos!
Deves ufanar-te da minha caça!
Convoca os amigos para um festim! Ditoso, bem ditoso és, por tais proezas praticarmos!

Cadmo
Ó dor sem freio, tão dolorosa de ver, sangue derramado por mãos míseras, eis a tua proeza!
Bela é a vítima que aos deuses acaba de imolar, e para cujo festim aos Tebanos e a mim convidas!
Teus males choro primeiro, os meus depois.
É que o deus, com justiça talvez, mas com força excessiva nos feriu - Brómio, o Senhor, vergôntea de nossa raça!

Agave
Ah! Como os homens são mal humorados na velhice, e de aspecto carrancudo! Que o meu filho bom caçador venha a ser, o exemplo da mãe seguindo, para, com a juventude tebana, as feras acossar! Mas combater os deuses é só o que ele sabe. Ó pai, cumpre-te adverti-lo! E se alguém o convocasse ante meus olhos, para que veja a minha ventura?

Cadmo
Ai! Ai! Quando tomares consciência do que fizeste, uma dor atroz te consumirá! Se até o fim deves permanecer sempre no estado em que te encontras, que afortunada não és, mas infortunada também não, hão de pensar.

Agave
Que há nisto de odioso ou de lúgubre?

Cadmo
Primeiro, levanta os teus olhos ao éter.

Agave
Estou a olhar. Por que tal ordenas?

Cadmo
Parece-te igual, ou sofreu alteração?


Agave
Está mais resplandecente e transparente que antes.

Cadmo
O deslumbramento opera anda na tua alma?

Agave
Não compreendo ainda as tuas palavras... Mas recuperei a razão, operou-se uma mudança no meu espírito!

Cadmo
Queres ouvir-me e responder claramente?

Agave
Sim; até já esqueci o que disses antes, ó pai.

Cadmo
A que mansão te levou o himeneu?

Agave
A Equíon me deste, o que dizem nascido dos dentes do dragão.

Cadmo
Ao teu esposo, que filho em sua mansão nasceu?

Agave
De nosso amor comum Penteu é o fruto.

Cadmo
E agora de quem é a cabeça que nos teus braços sustém?

Agave
De um leão; assim diziam as minhas companheiras de caça.

Cadmo
Olha agora bem; pequeno esforço te custará.

Agave
Que contemplo? O que trago nas minhas mãos?

Cadmo
Observa-a e reconhece-a melhor.

Agave
Eu vejo, ó desventurada, uma dor desmedida!

Cadmo
Ainda te parece que se assemelha a um leão?

Agave
Não, a cabeça de Penteu eu seguro, ó desventurada!

Cadmo
Carpida foi, ante de a reconheceres.

Agave
Quem o matou? Como chegou às minhas mãos?

Cadmo
Ó desgraçada verdade, em momento errado te recompões!

Agave
Fala! O meu coração treme pelo que se segue.

Cadmo
Foste tu que o mataste, tu e as tuas irmãs.

Agave
Onde morreu? No palácio? Em outro lugar?

Cadmo
Onde outrora os cães a Actéon despedaçaram.

Agave
Por que foi ele ao Citéron, o desgraçado?

Cadmo
Ia ultrajar o deus, e as tuas Bacanais.

Agave
E nós como é que alcançamos tais paragens?

Cadmo
O delírio báquico vos tomou, a vós e à cidade toda.

Agave
Dioniso nos perdeu; agora compreendo.

Cadmo
Sentia-se ultrajado, por não acreditares que era um deus.

Agave
Onde está o corpo amado de meu filho, ó pai?

Cadmo
Com grande canseira o procurei e trouxe.

Agave
Todos os membros estão decentemente reunidos?

Agave
Na minha demência, que parte coube a Penteu?


Cadmo
A vós se igualou, no seu desprezo ao deus.
Por tal, a todos nós em desgraça comum ele envolveu, para vos destruir a vós, a ele, à minha casa, e a mim, que fico privado de um filho varão, deste fruto das tuas entranhas, ó infortunada, que eu vejo morto por afrontosa e execrável morte!
Ó tu, em quem a casa tinha os olhos postos - apoio único, ó filho,
de minha casa eras, tu, que da minha filha descendias!
À cidade inspiravas temor, e ao ancião não ousavam insultar, quando miravam a tua fronte - com justo castigo os punirias!
Desta mansão, sem honra vou ser exilado, eu, o grande Cadmo, que a raça dos Tebanos, a mais famosa seara, semeei e ceifei.
Ó tu, de entre os homens o mais caro - embora já não existas, entre os mais caros me são te contarei, ó filho - já não virás mais acariciar o meu queixo com a tua mão, nem me estreitarás, chamando-me o pai de tua mãe, ó filho, e dizendo: “Quem te ofende, quem te despreza, ó ancião?
Quem te aflige e perturba o coração?
Diz, para eu punir quem te maltrata, ó pai!”
Um desgraçado agora sou, e um desventurado és tu também, infortunada a tua mãe e as suas irmãs desventuradas!
Se existe alguém que aos deuses despreze, esta morte considere e nos mortais creia.

Coro
Tua dor eu sinto, ó Cadmo! Sofreu castigo justo, o filho da tua filha, mas que penar o teu!

Agave
Vês como a minha vida se alterou, ó pai?

(Dioniso aparece ex machina.)

Dioniso
Mudando de forma, a dragão passarás, e a tua esposa em animal se tornará, tomando a forma de serpente, a filha de Ares, Harmonia, que tu, sendo mortal, desposaste.
Diz um oráculo de Zeus que um carro de bois com a tua esposa conduzirás, e, dirigindo os bárbaros, arrasarás inúmeras cidades com um exército numeroso. Mas, quando o oráculo de Lóxias saquearem, um mísero regresso terão.
A ti, porém, Ares te salvará, bem como a Harmonia; à terra dos Bem-aventurados tua vida levará para sempre...
Eu, que tais coisas anuncio, de pai mortal não nasci, mas de Zeus: sou Dioniso. Se bom senso tivésseis, o que não quisestes, da aliança e da felicidade do filho de Zeus desfrutaríeis.

Cadmo
Amerceia-te de nós, que te injuríamos, ó Dioniso!

Dioniso
Tarde o reconhecestes; não soubestes fazê-lo.

Cadmo
Compreendemos, mas tu fere-nos com dureza.

Dioniso
Deus que nasci, de vós me vieram ultrajes.

Cadmo
Não devem os deuses, no rancor, aos mortais igualar-se.

Dioniso
Há muito que Zeus, o meu pai, fixou os acontecimentos.

Agave
Ai! Ai! Ó ancião, decretado está o penoso exílio!

Dioniso
Por que tardais, se a necessidade o ordena?

Cadmo
Ó filha, a que desgraça atroz chegamos, todos nós, tu, infortunada e as tuas irmãs, e este desditoso que eu sou! Para os bárbaros irei,
como ancião intruso! Um oráculo me mandou que contra a Hélade uma horda confusa de bárbaros conduzisse.
À filha de Ares, Harmonia, minha esposa, que das serpente a forma selvagem partilhará comigo, contra altares e túmulos helênicos a conduzirei, à frente das lanças. Termo não terá o infortúnio de meus males, nem atravessarei o Aqueronte que leva às profundezas, para ficar em paz!

Agave
Apartada de ti, para o exílio irei, ó pai!

Cadmo
Para que me rodeias com os teus braços, ó filha mísera, tal o cisne jovem a um outro, já grisalho e sem defesa?

Agave
Banida da pátria, para onde encaminharei maus passos?

Cadmo
Não sei, filha. Débil é a ajuda de teu pai.

Agave
Adeus, mansão minha, adeus, ancestral cidade! Pela desventura vos deixo, do tálamo exilada!

Cadmo
Vai, ó filha. O filho de Aristeu

Agave
Eu te lamento, pai!

Cadmo
E eu a ti, filha, e, pelas tuas irmãs, lágrimas derramo.

Agave
De modo terrível, o divino Dioniso tua morada com esta tortura
atingiu!

Dioniso
Injúria terrível de vós me veio; privado de honra foi meu nome em Tebas!

Agave
Sê feliz, pai!

Cadmo
Sê feliz, desgraçada filha! Difícil te será!

Agave
Levai-me na vossa companhia, para onde as minhas irmãs, desditosas e comigo exiladas, a mim juntarei!
Quisera ir para longe, que nunca mais visse o Citéron impuro, nunca mais meus olhos o Citéron avistassem, nunca mais do tirso me lembrasse!
Que o aceitem outras Bacantes!

Coro
Muitas são as formas do divino, e muitas as ações imprevistas dos deuses.O que esperávamos não se realizou; para o inesperado o deus achou caminho.
Assim terminou este drama.



http://www.youtube.com/watch?v=JrgPSlFzgbQ&feature=related


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http://www.youtube.com/watch?v=TcmWlDqcbT0&feature=related


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A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DO TEATRO
(saiba mais)

http://liriah.teatro.vilabol.uol.com.br/historia/aorigemeevolucaodoteatro.htm


A origem do teatro pode ser remontada desde as primeiras sociedades primitivas, em que acreditava-se no uso de danças imitativas como propiciadores de poderes sobrenaturais que controlavam todos os fatos necessários à sobrevivência (fertilidade da terra, casa, sucesso nas batalhas etc), ainda possuindo também caráter de exorcização dos maus espíritos. Portanto, o teatro em suas origens possuía um caráter ritualístico.
Com o desenvolvimento do domínio e conhecimento do homem em relação aos fenômenos naturais, o teatro vai deixando suas características ritualistas, dando lugar às características mais educacionais. Ainda num estágio de maior desenvolvimento, o teatro passou a ser o lugar de representação de lendas relacionadas aos deuses e heróis.
Na Grécia antiga, os festivais anuais em honra ao deus Dionísio (Baco, para os latinos) compreendiam, entre seus eventos, a representação de tragédias e comédias. As primeiras formas dramáticas na Grécia surgiram neste contexto, inicialmente com as canções dionisíacas (ditirambos).
A tragédia, em seu estágio seguinte, se realizou com a representação da primeira tragédia, com Téspis. A introdução de segundos e terceiros atores nas tragédias veio com Ésquilo e Sófocles. Surgiu também a peça satírica: o conservador Aristófanes cria um gênero sem paralelo no teatro moderno, pois a comédia aristofânica mesclava a paródia mitológica com a sátira política. Todos os papéis eram representados por homens, pois não era permitida a participação de mulheres.
Os escritores participavam, muitas vezes, tanto das atuações como dos ensaios e da idealização das coreografias. O espaço utilizado para as encenações, em Atenas, era apenas um grande círculo. Com o passar do tempo, grandes inovações foram sendo adicionadas ao teatro grego, como a profissionalização, a estrutura dos espaços cênicos (surgimento do palco elevado) etc. Os escritores dos textos dramáticos cuidavam de praticamente todos os estágios das produções.
Nesse mesmo período, os romanos já possuíam seu teatro, grandemente influenciado pelo teatro grego, do qual tirou todos os modelos. Nomes importantes do teatro romano foram Plauto e Terêncio. Roma não possuiu um teatro permanente até o ano de 55 a.C., mas segundo é dito, enormes tendas eram erguidas, com capacidade para abrigarem cerca de 40.000 espectadores.
Apesar de ter sido totalmente baseado nos moldes gregos, o teatro romano criou suas próprias inovações, com a pantomima, em que apenas um ator representava todos os papéis, com a utilização de máscara para cada personagem interpretado, sendo o ator acompanhado por músicos e por coro.
Com o advento do Cristianismo, o teatro não encontrou apoio de patrocinadores, sendo considerado pagão. Desta forma, as representações teatrais foram totalmente extintas.
O renascimento do teatro se deu, paradoxalmente, através da própria igreja, na Era Medieval. O renascimento do teatro se deveu à representação da história da ressurreição de Cristo. A partir deste momento, o teatro era utilizado como veículo de propagação de conteúdos bíblicos, tendo sido representados por membros da igreja (padres e monges). O teatro medieval religioso entrou em franco declínio a partir de meados do século XVI.
Desde o século XV, trupes teatrais agregavam-se aos domínios de senhores nobres e reis, constituindo o chamado teatro elisabetano. Os atores - ainda com a participação exclusiva de atores homens - eram empregados pela nobreza e por membros da realeza. O próprio Shakespeare, assim como o ator original de Otelo e Hamlet, Richard Burbage, eram empregados pelo Lorde Chamberlain, e mais tarde foram empregados pelo próprio rei.
Na Espanha, atores profissionais trabalhavam por conta própria, sendo empresariados pelos chamados autores de comédia. Anualmente, as companhias realizavam festivais religiosos, e sobretudo no século XVII, as representações nas cortes espanholas encontravam-se fortemente influenciadas pelas encenações italianas. Os nomes mais proeminentes deste período (a chamada idade de ouro do teatro espanhol) foram Calderon de La Barca e Lope de Vega.
Foi mais notadamente na Itália que o teatro renascentista rompeu com as tradições do teatro medieval. Houve uma verdadeira recriação das estruturas teatrais na Itália, através das representações do chamado teatro humanista. Os atores italianos deste, basicamente, eram amadores, embora já no século XVI tenha havido um intenso processo de profissionalização dos atores, com o surgimento da chamada "Commedia Dell'Arte", em que alguns tipos representados provinham da tradição do antigo teatro romano: eram constantes as figuras do avarento e do fanfarrão.
Devido às muitas viagens que as pequenas companhias de Commedia Dell'Arte empreendiam por toda a Europa, este gênero teatral exerceu grande influência sobre o teatro realizado em outras nações. Um dos aspectos marcantes nesse teatro foi a utilização de mulheres nas representações, fato que passou a se estender para os outros países.
No século XVII, o teatro italiano experimentou grandes evoluções cênicas, muitas das quais já o teatro como atualmente é estruturado. Muitos mecanismos foram adicionados à infra-estrutura interna do palco, permitindo a mobilidade de cenários e, portanto, uma maior versatilidade nas representações.
Foi a partir do século XVII que as mulheres passaram a fazer parte das atuações teatrais na Inglaterra a na França. Na Inglaterra, os papéis femininos eram antes representados por jovens atores aprendizes. Na França, uma das atrizes que outrora havia sido integrante do grupo de Molière passou a fazer parte do elenco das peças de Racine. Therese du Parc, conhecida depois como La Champmesle, foi a atriz que primeiro interpretou o papel principal de Fedra, da obra de Racine, tornando-se então uma das principais atrizes da chamada "Commedie Française".
No Brasil, o teatro tem sua origem com as representações de catequização dos índios. As peças eram escritas com intenções didáticas, procurando sempre encontrar meios de traduzir a crença cristã para a cultura indígena. Uma origem do teatro no Brasil se deveu à Companhia de Jesus, ordem que se encarregou da expansão da crença pelos países colonizados. Os autores do teatro nesse período foram o Padre José de Anchieta e o Padre Antônio Vieira. As representações eram realizadas com grande carga dramática e com alguns efeitos cênicos, para a maior efetividade da lição de religiosidade que as representações cênicas procuravam inculcar nas mentes aborígines. O teatro no Brasil, neste período, estava sob grande influência do barroco europeu.
Ao cabo do século XVIII, as mudanças na estrutura dramática da peças foram reflexo de acontecimentos históricos como a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Surgiram formas como o melodrama, que atendia aos gosto do grande público. Muitos teatros surgiram juntamente com esse grande público.
No século XIX as inovações cênicas e infra-estruturais do teatro tiveram prosseguimento. O teatro Booth de Nova York já utilizava os recursos do elevador hidráulico. Os recursos de iluminação também passaram por muitas inovações e experimentações, com o advento da luz a gás. Em 1881, o Savoy Theatre de Londres foi o primeiro a utilizar iluminação elétrica.
Os cenários, assim como o figurino, procuravam reproduzir situações históricas com um realismo bastante apurado. As sessões teatrais, em que outrora encenavam-se várias peças novas ou antigas, foram passando a ser utilizadas apenas para a encenação de uma peça. Todas as inovações pelas quais o teatro foi passando exigiram o surgimento da figura do diretor, que trata de todos os estágios artísticos de uma produção.
Ao final do século XIX uma série de autores passaram a assumir uma postura de criação bastante diversa da de seus predecessores românticos, visando a arte como veiculo de denúncia da realidade. Escritores como Henrik Ibsen e Emile Zola foram partidários dessa nova tendência, cada qual com sua visão particular.
O teatro do século XX caracteriza-se pelo ecletismo e pela grande quebra de antigas tradições. O "design" cênico, a direção teatral, a infra-estrutura e os estilos de interpretação não se vincularam a um único padrão predominante. Entretanto, pode-se dizer que as idéias de Bertolt Brecht foram as que mais influenciaram o teatro moderno. Segundo dizia Brecht , o ator deve manter-se consciente do fato que esta atuando e que jamais pode emprestar sua personalidade ao personagem interpretado. A peça em si, por sua vez, assim como a mensagem social nela contida, deveria ser o supremo objeto de interesse. Para tanto, os espectadores deveriam ser constantemente lembrados que estão vendo uma peça teatral e que, portanto, não identifiquem os personagens como figuras da vida real, pois neste caso a emoção do espectador obscureceria seu senso crítico.
Dado o seu temor no caso dos atores mostrarem-se incapazes de desempenhar os papéis com tanta imparcialidade, Brecht utilizou vários recursos que libertariam as encenações de quaisquer ilusões de realidade que poderiam ser criadas nas mentes dos espectadores. A cenografia se dirigia a muitos efeitos não-realísticos, assim como as próprias atividades de mudança de palco podiam ser vistas pelo público. No teatro contemporâneo tanto as tradições realistas como as não-realistas convivem simultaneamente.

O TEATRO NA ANTIGUIDADE

O Teatro Ocidental tem origem nos festivais religiosos gregos em honra a Dionísio, a partir do século VII a.C. Os cânticos eram entoados por um coro, conduzido por um solista, o corifeu.
No século VI a.C., na Grécia, surge o primeiro ator quando o corifeu Téspis destaca-se do coro e, avançando até a frente do palco, declara estar representando o deus Dionísio. É dado o primeiro passo para o teatro como o conhecemos hoje. Em Roma os primeiros jogos cênicos datam de 364 a.C. A primeira peça, traduzida do grego, é representada em 240 a.C. por um escravo capturado em Tarento. Imita-se o repertório grego, misturando palavra e canto, e os papéis são representados por atores masculinos mascarados, escravos ou libertos.

GRÉCIA

Do século VI a.C. ao V d.C., em Atenas, o tirano Pisístrato organiza o primeiro concurso dramático (534 a.C.). Apresentam-se comédias, tragédias e sátiras, de tema mitológico, em que a poesia se mescla ao canto e à dança. O texto teatral retrata, de diversas maneiras, as relações entre os homens e os deuses.
No primeiro volume da ''Arte poética'', Aristóteles formula as regras básicas para a arte teatral: a peça deve respeitar as unidades de tempo (a trama deve desenvolver-se em 24h), de lugar (um só cenário) e de ação (uma só história).
Autores gregos - Dos autores de que se possuem peças inteiras, Ésquilo ''Prometeu acorrentado'' trata das relações entre os homens, os deuses e o Universo. Sófocles ''Édipo'' e Eurípides ''Medéia'' retratam o conflito das paixões humanas.
Do final do século IV a.C. até o início do século III a.C., destacam-se a "comédia antiga" de Aristófanes ''Lisístrata'', que satiriza as tradições e a política atenienses; e a "comédia nova", que com Menandro ''O misantropo'' critica os costumes.
Ésquilo (525 a.C.?-456 a.C.?) nasce numa família nobre ateniense e luta contra os persas. Segundo Aristóteles, é o criador da tragédia grega. Escreve mais de noventa tragédias, das quais sete são conhecidas integralmente na atualidade - ''As suplicantes'', ''Os persas'', ''Os sete contra Tebas'', ''Prometeu acorrentado'' e a trilogia ''Orestia'', da qual fazem parte Agamenon, ''As coéforas'' e '' Eumenides''.
Sófocles (495 a.C?-406 a.C.) vive durante o apogeu da cultura grega. Escreve cerca de 120 peças, das quais sete são conservadas até hoje, entre elas ''Antígona'', ''Electra'' e ''Édipo Rei''. Nesta última, Édipo mata o pai e casa-se com a própria mãe, cumprindo uma profecia. Inspirado nessa história, Sigmund Freud formula o complexo de Édipo.
Eurípides (484 a.C.?-406 a.C.) é contemporâneo de Sófocles e pouco se sabe sobre sua vida. Suas tragédias introduzem o prólogo explicativo e a divisão em cenas e episódios. É considerado o mais trágico dos grandes autores gregos. Em sua obra destacam-se ''Medéia'', ''As troianas'', ''Electra'', ''Orestes'' e ''As bacantes''.
Aristófanes (450 a.C.?-388 a.C?) nasce em Atenas, Grécia. Sua vida é pouco conhecida, mas pelo que escreve se deduz que teve boa educação. Sobrevivem, integralmente, onze de cerca de quarenta peças. Violentamente satírico, critica as inovações sociais e políticas e os deuses em diálogos inteligentes. Em ''Lisístrata'', as mulheres fazem greve de sexo para forçar atenienses e espartanos a estabelecerem a paz.
Espaço cênico grego - Os teatros são construídos em áreas de terra batida, com degraus em semicírculo para abrigar a platéia. A área da platéia é chamada de teatron e o conjunto de edificações recebe o nome de odeion. O palco é de tábuas, sobre uma armação de alvenaria, e o cenário é fixo, com três portas: a do palácio, no centro; a que leva à cidade, à direita; e a que vai para o campo, à esquerda. Essa estrutura de palco permanecerá até o fim da Renascença. Na fase áurea, teatros, como o de Epidauro, perto de Atenas, já são de pedra e situam-se em locais elevados, próximos aos santuários em honra a Dionísio.(ao topo)

ROMA

Predomina a comédia. A tragédia é cheia de situações grotescas e efeitos especiais. Durante o Império Romano (de 27 a.C. a 476 d.C.) a cena é dominada por pantomimas, exibições acrobáticas e jogos circenses.
Autores romanos - Na comédia destaca-se Plauto ''A panelinha'', no século III a.C., e Terêncio ''A garota de Ândria'', no século II a.C. Suas personagens estereotipadas darão origem, por volta do século XVI, aos tipos da commedia dell'arte. Da tragédia só sobrevivem completas as obras de Sêneca ''Fedra'', que substituem o despojamento grego por ornamentos retóricos.
Plauto ( 254 a.C.?-184 a.C.), além de dramaturgo romano, possivelmente trabalha também como ator. Adapta para Roma enredos de peças gregas e introduz nos textos expressões do dia-a-dia, além de utilizar uma métrica elaborada. Seus textos alegres são adaptados várias vezes ao longo dos séculos e influenciam diversos autores posteriores, entre eles Shakespeare e Molière.
Espaço cênico romano - Até 56 a.C. as encenações teatrais romanas são feitas em teatros de madeira; depois, surgem construções de mármore e alvenaria, no centro da cidade. Com o triunfo do cristianismo, os teatros são fechados até o século X.
O Teatro Ocidental tem origem nos festivais religiosos gregos em honra a Dionísio, a partir do século VII a.C. Os cânticos eram entoados por um coro, conduzido por um solista, o corifeu.
No século VI a.C., na Grécia, surge o primeiro ator quando o corifeu Téspis destaca-se do coro e, avançando até a frente do palco, declara estar representando o deus Dionísio. É dado o primeiro passo para o teatro como o conhecemos hoje. Em Roma os primeiros jogos cênicos datam de 364 a.C. A primeira peça, traduzida do grego, é representada em 240 a.C. por um escravo capturado em Tarento. Imita-se o repertório grego, misturando palavra e canto, e os papéis são representados por atores masculinos mascarados, escravos ou libertos.

A BANDA
Chico Buarque/1966
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Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem

A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor

O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Que ainda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela

A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar cantando coisas de amor

Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou

E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor

Caminhos Cruzados
Caetano Veloso
Composição: Tom Jobim/Newton Mendonça

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Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar,
Que o amor pode de repente chegar
Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém
E esse outro alguém não entender

Deixe este novo amor chegar,
Mesmo que depois seja imprescindível chorar
Que tola fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor que ninguém pode explicar
Vem nós dois vamos tentar,
Só um novo amor pode a saudade apagar

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